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Jéssica Weber

Szimpla Kert e outros ruin bars

Visto de fora, o Szimpla Kert tem cor de poeira, reboco aparente, alguns tijolos faltando e até uma planta crescendo entre o rejunte. Mas não é raro ter fila dobrando o quarteirão para entrar: o lugar foi eleito o melhor bar da Europa em 2026 pelo European Bar Guide. 

O Szimpla foi o primeiro ruin bar da capital húngara e deu origem a um conceito popular. Os “bares em ruínas” ocupam prédios velhos no bairro judeu de Budapeste, área transformada em gueto durante a II Guerra Mundial e deteriorada nas décadas seguintes. Em vez de reformar completamente esses imóveis, os bares aproveitaram justamente sua aparência decadente, preenchendo os espaços com uma decoração excêntrica. 

Szimpla Kert e outros ruin bars

Você entra no Szimpla Kert e fica até meio confuso, sem saber para onde ir ou olhar. São vários ambientes, alguns fechados, outros ao ar livre, e nenhum é igual. Paredes e portas têm várias camadas de rabiscos e pichação, a decoração vai de uma caixa de correio tradicional de Budapeste a TVs de tubo com imagens psicodélicas. Um pátio interno reúne plantas trepadeiras às luminárias mais aleatórias que conseguiram encontrar. Nada combina com nada, e o mais contraditório é a harmonia que surge disso. 

A maioria vai lá para beber, tem vários balcões espalhados pelos ambientes. Serve cervejas — inclusive húngaras e artesanais —, vinhos, pálinka (destilado tradicional da Hungria), coquetéis e bebidas sem álcool. Apesar das origens alternativas, o Szimpla já não é necessariamente um lugar barato. Também vende alguns lanches, mas eu acho que vale guardar a fome para o Street Food Karavan Budapest, um pátio a céu aberto com vários food trucks, que fica na mesma rua. 

A entrada é gratuita. A programação pode incluir shows, DJs, apresentações acústicas, sessões de cinema, exposições e outros eventos culturais. Na primeira vez, eu fui de noite e desisti quando vi o tamanho da fila. Se não quiser esperar para entrar, tente chegar antes de anoitecer. Conseguir comprar bebida ou garantir um lugar pra sentar pode demandar alguma paciência. Mas muita gente fica de pé mesmo. Como junta bastante público, vale tomar cuidado com pickpockets. 

Se quiser conhecer o espaço com uma atmosfera mais familiar, vale ir no domingo de manhã, quando o Szimpla recebe uma feira de produtores. Dá para encontrar queijos, embutidos, pães, mel, geleias, frutas, verduras, sucos e outros produtos de pequenos produtores húngaros. Há também música ao vivo e atividades comunitárias. 

Szimpla Kert e outros ruin bars

Mas seguem outras sugestões de ruin bars no bairro judeu de Budapeste, rola até de fazer um pub crawl:

Instant-Fogas Complex

Localizado na Akácfa utca, é um complexo bem grande com vários balcões de bar espalhados e seis pistas de dança. A proposta é bem mais próxima de uma casa noturna: há vários ambientes ao redor de um pátio interno, dedicados a diferentes estilos musicais (tinha até um com pegada emo). A festa segue madrugada adentro. A gente chegou cedinho e ainda estava meio vazio, imagino que encha mais pela meia-noite. A entrada no Instant-Fogas Complex é normalmente gratuita, mas pode haver exceção em algum show ou evento especial. 

Füge Udvar

O Füge Udvar tem uma proposta mais de bar mesmo, MAS também tem ambientes para quem quer dançar. Quando eu fui tinha uma galera bailando latinidades em um ambiente e dançando Justin Bieber em outro. Tem um pátio com árvore, cordões de lâmpadas várias mesas, tinha TVs passando jogos de basquete, e outros ambientes internos, inclusive, com jogos de ping pong, pebolim e alguns outros brinquedos de fliperama antigo. Eu achei bem animado, e estava bem cheio. Também não cobra entrada. 

Mazel Tov (restaurante)

Outro endereço frequentemente associado ao conceito é o Mazel Tov, instalado em um antigo edifício na Akácfa utca. Mas ele representa uma versão bem mais Nutella da ideia: o interior foi reformado, ganhou um balcão de azulejos, mesinhas de madeira, muita vegetação e funciona principalmente como restaurante de cozinha judaica contemporânea. Então a experiência é bem diferente daquela encontrada no Szimpla, é até sofisticada. É recomendável fazer reserva. 

A história dos ruin bars de Budapeste

A história desses empreendimentos está ligada à história do Bairro Judeu de Budapeste no século XX. A região de Erzsébetváros, especialmente o VII Distrito onde fica o Szimpla Kert, tinha muitos edifícios residenciais do século XIX, construídos em torno de pátios internos. Durante a Segunda Guerra Mundial, parte dessa área foi transformada no gueto de Budapeste, onde dezenas de milhares de judeus foram confinados em 1944–45.

Depois da guerra, o bairro passou por décadas de transformações e perda de população. Durante o período comunista, muitos moradores deixaram a região central em direção aos subúrbios ou emigraram do país, enquanto diversos imóveis antigos foram se deteriorando. Quando o regime comunista chegou ao fim, em 1989, havia no bairro edifícios do período anterior à guerra bastante degradados, alguns vazios e outros destinados à demolição.

Foi nesse cenário que, no começo dos anos 2000, jovens empreendedores começaram a transformar alguns desses espaços em bares sem tentar esconder completamente sua decadência. Em vez de grandes reformas, entraram móveis usados, objetos encontrados em mercados de pulgas e muita criatividade. O que inicialmente era uma maneira barata e despretensiosa de aproveitar imóveis sem uso acabou criando uma estética própria e uma das características mais conhecidas da vida noturna de Budapeste.

Szimpla Kert e outros ruin barsO grande símbolo desse movimento é o Szimpla Kert. O projeto surgiu em 2002 e depois se transferiu para a Kazinczy utca 14, onde se consolidou como referência entre os ruin bars. O próprio imóvel ajuda a contar a história da região: construído no século XIX, ele já foi residência, fábrica de fogões e chegou a ser destinado à demolição. Em 1944, o prédio ficou dentro dos limites do gueto de Pest; Sándor Héber, proprietário da fábrica que funcionava ali, foi enviado para um campo de trabalhos forçados, sobreviveu e retornou depois da guerra. Posteriormente, o edifício foi nacionalizado pelo regime comunista.

O sucesso dos bares também ajudou a transformar o próprio Bairro Judeu. A região antes marcada por muitos imóveis negligenciados tornou-se uma das áreas mais movimentadas da cidade, cheia de restaurantes, cafés, bares e turistas. Essa transformação também trouxe problemas, como barulho, excesso de visitantes e conflitos com moradores, mas fez dos ruin bars uma parte importante da identidade contemporânea de Budapeste.

Szimpla Kert e outros ruin bars

Kazinczy u. 14.
Budapeste
1075
http://www.szimpla.hu

Jéssica Weber

Sou uma jornalista apaixonada por mato e praia, interessada na história dos lugares, na arquitetura das cidades e em comida, é claro. Sou gaúcha, amo fotografar e escrever — tenho mestrado em Escrita Criativa pela PUC-RS. Como uma das editoras do Guia Melhores Destinos, desde 2022, meu trabalho é turistar pelo Brasil e pelo mundo para te trazer as melhores dicas :)