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Jéssica Weber

A Casa do Terror

A Casa do Terror, ou Terror Háza, é o museu mais interessante que eu visitei em Budapeste. O prédio do número 60 da Avenida Andrássy, uma das principais vias da capital húngara, já foi sede do movimento fascista húngaro da Cruz Flechada durante a II Guerra Mundial e, depois, passou para as mãos da polícia política do regime comunista. Pessoas foram presas, interrogadas, torturadas e até mortas no local. 

Desde 2002, é um museu moderno, cheio de recursos visuais, que conta como foram esses períodos na Hungria de uma maneira super envolvente. Sua exposição combina objetos históricos, documentos, fotografias, projeções, vídeos, depoimentos e instalações super cenográficas - cada sala é completamente diferente da outra. O ponto alto vem no final, quando os turistas podem visitar as celas onde os prisioneiros eram mantidos e torturados no porão. 

A Casa do TerrorVale reservar no mínimo duas horas para a atração. Até para fazer valer o valor do ingresso. Em 2026, custa 4.000 florins húngaros, em torno de R$ 65. Há a opção de adquirir uma visita guiada em inglês, mas eu não considero indispensável. Quando eu visitei, cada sala tinha, normalmente perto da porta, um suporte com folhinhas dando um contexto sobre cada espaço, em inglês. Não deixe de ler, isso muda totalmente a experiência. Se preciso, use aplicativos como o Chat GPT ou Google Tradutor para traduzir.

Não há requisito de idade mínima para visitar, mas eu não acho que seja legal para crianças. Menores de 14 anos precisam entrar acompanhados por um adulto. 

Esse museu é incrível, eu recomendo a visita. Mas vá sabendo de algumas polêmicas. Tem pesquisadores que criticam o desequilíbrio entre os dois períodos: apesar de a Casa do Terror se apresentar como memorial das vítimas tanto do fascismo quanto do comunismo, uma parcela muito maior da exposição é dedicada ao período comunista. 

Outro ponto controverso é a narrativa da "dupla ocupação", construção que coloca a Hungria predominantemente na posição de vítima de potências estrangeiras e deixa em segundo plano a participação de autoridades e setores da sociedade húngara na perseguição e deportação dos judeus. 

Vocês lembram que o partido de direita que governava a Hungria por 16 anos foi derrotado nas urnas em 2026? Pois o novo governo afastou a historiadora que esteve à frente da instituição por décadas e anunciou uma revisão profissional da exposição permanente por pesquisadores e especialistas independentes. Então pode ser que quando você for visitar, já haja alguma mudança. 

A Casa do Terror

A história do prédio da Casa do Terror

O endereço é fundamental para compreender o museu. A partir de 1937, o movimento da Cruz Flechada, liderado por Ferenc Szálasi, instalou sua sede na Andrássy út 60. O grupo fascista e antissemita, aliado da Alemanha nazista, chegaria ao poder na Hungria em outubro de 1944.

O prédio passou então a funcionar também como local de detenção. No porão, que anteriormente servia como depósito de carvão, prisioneiros foram mantidos, espancados, torturados e mortos.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, mudou o regime, mas o endereço continuou associado à repressão. A polícia política comunista tomou o prédio e transformou o porão em um complexo de celas. Segundo o museu, ainda hoje não se conhece completamente a extensão do sistema de túneis existente sob os edifícios vizinhos naquele período.

A Casa do Terror

É justamente essa sequência que explica o nome Casa do Terror: o museu procura contar a história de dois períodos de ditadura e, ao mesmo tempo, preservar a memória das pessoas perseguidas naquele endereço.

Inclusive, quando eu visitei tinha uma sala que oferecia uma analogia interessante a respeito da mudança de regime. Era um vestiário, onde uniformes associados à Cruz Flechada e à polícia política comunista são utilizados para representar a passagem de uma ditadura para outra.

Segundo o museu, os comunistas inclusive acolheram em suas fileiras aqueles membros da base do partido Cruz Flechada que demonstraram disposição para cooperar. Eles continuaram a servir, desempenhando as mesmas funções de antes: aterrorizar, humilhar, torturar e matar. Simplesmente trocaram a teoria racista pela teoria da luta de classes marxista: tratava-se apenas de uma questão de mudar de uniforme.

A Casa do Terror

Como é a visita à Casa do Terror

Antes ou depois de percorrer as salas, vale observar com atenção o grande átrio do edifício. Ali está exposto um tanque soviético diante de uma enorme parede coberta por fotografias. No alto, aparece a palavra Áldozatok, que significa “vítimas” em húngaro. 

O contraste é proposital: uma grande máquina militar aparece diante dos rostos das pessoas atingidas pelos regimes retratados pelo museu. O tanque e a parede de retratos estão entre as imagens mais marcantes da Casa do Terror e ajudam a dar dimensão humana aos acontecimentos históricos apresentados ao longo da visita.

A Casa do TerrorA exposição permanente começa no segundo andar e segue aproximadamente uma ordem cronológica. O visitante passa primeiro pela ocupação nazista da Hungria e pelo regime da Cruz Flechada e, depois, acompanha a chegada das forças soviéticas e a implantação da ditadura comunista.

Logo no início, a sala Occupation Follows Occupation apresenta essa sucessão de domínios. A Alemanha nazista ocupou a Hungria em março de 1944. Meses depois, o Exército Vermelho entrou no território húngaro e, após a derrota nazista, a Hungria acabou integrada à esfera soviética.

Outra sala apresenta a Cruz Flechada, movimento fascista húngaro que adotava como símbolo uma cruz formada por flechas. O partido perseguiu principalmente judeus e opositores e participou dos massacres ocorridos em Budapeste nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial.

A Casa do Terror

A exposição passa então para a ocupação soviética e para os campos de trabalho forçado. Uma sala dedicada ao Gulag lembra os húngaros enviados para campos soviéticos depois da guerra. O próprio museu fala em cerca de 700 mil prisioneiros de guerra e civis húngaros deportados para trabalhos forçados.

Depois vem uma das instalações mais simbólicas da exposição, a Changing Room, ou “Vestiário”. Uniformes associados à Cruz Flechada e à polícia política comunista são utilizados para representar a passagem de uma ditadura para outra. Essa comparação é parte central da interpretação histórica proposta pela Casa do Terror: o museu procura enfatizar paralelos entre os mecanismos de repressão dos dois regimes.

A partir daí, boa parte da exposição se concentra na Hungria comunista. Há salas sobre os anos 1950, os conselheiros soviéticos, a resistência ao regime, a perseguição de agricultores considerados “inimigos de classe”, as deportações internas, o controle do Judiciário e a perseguição religiosa.

A Casa do Terror

Polícia secreta, julgamentos e perseguições

Uma personagem recorrente nessa parte da visita é a ÁVH, a temida polícia política húngara. Sua antecessora ocupou justamente o prédio da Andrássy út 60 após a Segunda Guerra Mundial.

Os materiais da exposição mostram como a repressão alcançava diferentes grupos da sociedade. Agricultores tiveram terras e animais confiscados e eram obrigados a entregar parte de sua produção ao Estado. Aristocratas, empresários e membros da burguesia podiam ser classificados como inimigos de classe. Líderes religiosos também foram perseguidos.

Há ainda uma seção sobre o Judiciário, com os chamados julgamentos-espetáculo: processos políticos nos quais acusações e condenações podiam ser definidas previamente e confissões obtidas sob coerção.

Outra sala aborda os campos de internamento dentro da própria Hungria. Segundo o material do museu, mais de 40 mil pessoas foram enviadas para campos cercados por arame farpado, onde parte dos prisioneiros era submetida a trabalhos forçados.

A Casa do Terror

Revolução Húngara de 1956

Um dos momentos fundamentais da exposição é dedicado à Revolução Húngara de 1956. Em 23 de outubro daquele ano, manifestações que começaram em solidariedade a protestos ocorridos na Polônia transformaram-se numa revolta contra o regime comunista e a presença soviética.

Por alguns dias, parecia possível que a Hungria conquistasse maior liberdade e independência. Mas, em 4 de novembro, tropas soviéticas entraram em Budapeste e esmagaram a revolução. Segundo os números apresentados pelo museu, pelo menos 230 pessoas foram posteriormente executadas, mais de 26 mil receberam penas de prisão e cerca de 200 mil húngaros deixaram o país.

As celas do porão: a parte mais pesada da visita

É no fim do percurso que aparece a parte mais impactante da Casa do Terror. Um elevador leva lentamente os visitantes até o subsolo. Durante a descida, uma voz indiferente revela, em um breve documentário e com tom neutro, o método de execução em toda a sua horripilante simplicidade.

A Casa do TerrorNo porão estão as celas. A energia ali é pesada, não vou mentir. Especialmente porque estava praticamente sozinha no espaço nessa hora. É doido lembrar que não estamos em uma prisão militar distante, nem nas profundezas de uma masmorra, mas sim em uma das avenidas mais importantes da capital húngara.

Há relatos do uso de eletricidade, cigarros acesos, alicates, vidro quebrado, jatos de água, chapas aquecidas e espancamentos durante interrogatórios. Várias celas tem fotos de pessoas que foram presas e perseguidas pela polícia política comunista. O visitante também passa por uma sala com uma forca, que remete às execuções realizadas durante a ditadura comunista. Porém, a Casa do Terror ressalta que o prédio da Andrássy út 60 não funcionava oficialmente como local de execução, embora algumas pessoas tenham morrido ali. 

A Casa do Terror

É importante fazer uma ressalva: parte desse espaço é reconstruída. Quando a polícia política deixou o prédio depois de 1956, muitos vestígios das antigas instalações desapareceram. A reconstrução foi feita também a partir das lembranças de sobreviventes. 

Depois, os turistas passam pela Sala das Lágrimas (que inclui a lista de vítimas) e pelo Muro dos Perpetradores — uma lista das pessoas que participaram ativamente da manutenção dos regimes totalitários. O panorama histórico completo é encerrado com o memorial da retirada das tropas soviéticas da Hungria.

A Casa do Terror

Vale a pena visitar a Casa do Terror?

Para quem quer compreender melhor a história recente da Hungria, a Casa do Terror ajuda a colocar em contexto muitos outros lugares visitados em Budapeste, especialmente o Memorial dos Sapatos no Danúbio e os monumentos relacionados à Revolução de 1956. E mesmo quem não gosta de museus clássicos, é capaz de se interessar por essa exibição, que apresenta a história de forma envolvente em cenários super criativos. 

Mas é uma visita pesada. Tortura, assassinatos, deportações, perseguição religiosa e repressão política aparecem ao longo de praticamente todo o percurso. O museu aposta ainda em uma museografia bastante dramática, com iluminação, música, cenários e vídeos. Você não deve levar sustos, mas pode se comover. A parte das celas é a que eu achei a mais forte. 

Também é bom ter em mente que a Casa do Terror apresenta uma interpretação muito marcada da história húngara do século XX, particularmente ao aproximar as experiências do fascismo húngaro e do comunismo. Em alguns trechos, portanto, vale entender números, classificações e conclusões como parte da narrativa curatorial do próprio museu.

A Casa do Terror

Casa do Terror de Budapeste: ingresso, horário e como chegar

A Casa do Terror fica na Andrássy út 60, em uma região central de Budapeste. A estação Vörösmarty utca, da linha M1 do metrô, fica praticamente em frente ao museu. Outra opção é descer em Oktogon, atendida pela M1 e pelos bondes 4 e 6, e caminhar alguns minutos.

Em setembro de 2026, o ingresso inteiro custa 4.000 HUF e o reduzido, 2.000 HUF. Os ingressos são vendidos na bilheteria local. 

A Casa do Terror funciona normalmente de terça a domingo, das 10h às 18h, com a bilheteria fechando às 17h30. Às segundas-feiras, não abre. Reserve no mínimo duas horas para a visita. Eu fui perto do horário do fechamento e tive que correr um pouco, então vale chegar com antecedência.

A Casa do Terror

A Casa do Terror

Andrassy út 60.
Budapeste
1062
http://www.terrorhaza.hu

Jéssica Weber

Sou uma jornalista apaixonada por mato e praia, interessada na história dos lugares, na arquitetura das cidades e em comida, é claro. Sou gaúcha, amo fotografar e escrever — tenho mestrado em Escrita Criativa pela PUC-RS. Como uma das editoras do Guia Melhores Destinos, desde 2022, meu trabalho é turistar pelo Brasil e pelo mundo para te trazer as melhores dicas :)